• Maedra

As Cartas da Avó Lola

Olá Paola,

Sei que vamos estar juntas já no fim-de-semana na nossa Ericeira, mas nem consigo esperar mais um dia, para deitar cá para fora o que me vai na Alma.  Sinto medo, ansiedade, tristeza e tenho as memórias e as emoções todas à flor da pele.


O facto de me terem deixado cair aqui no lar, e por eu não ter referido dores, as ajudantes de lar não terem dado cavaco a ninguém, fez com que eu piorasse substancialmente.

É um hábito recorrente nos lares! As ajudantes de lar têm muitas vezes medo de dizer a quem de direito, que deixaram cair alguém. Por medo, ou por “culpa". Medo que ralhem, medo de despedimento, medo da colega que deixou cair e proíbe de falar ou de escrever a ocorrência, “culpa “pela responsabilização de ter deixado cair, porque não teve a atenção suficiente ou simplesmente porque deixar cair é algo que acontece, mesmo tomando as precauções necessárias.


O pior é que não dizer é sinónimo de piorar a situação clínica e pode muitas vezes levar à morte!


Quando de repente comecei com dores, já eram muitas e depois foi uma correria para o hospital, novamente! A perna tinha voltado a partir!


Receber a notícia que teria de ficar mais não sei quantos meses no lar, deixou-me completamente de rastos. Fiquei sozinha no quarto e sei lá porquê, veio tudo à memória. O pior, foi a sensação de fim, de estar tudo a acabar.


Porra! Vou acabar num lar por causa de me terem deixado cair?


Como num filme, relembrei os melhores e os piores momentos da minha vida, desde miúda até agora. E tive saudades de mim, de toda a minha vida!


E é  do caraças não conseguires andar, não te moveres, não puderes ir para onde queres, perderes a tua liberdade quando ainda te sentes livre! E é muito triste se não tiveres a força de braços suficiente para empurrares a tua própria cadeira e precisares de alguém para o fazer e perceberes que todos se desviam e fingem que não vêem a tua necessidade.

Sentes-te perdido, sem chão. E quando somos velhos, sentimo-nos indesejados e mais do que um peso, um fardo!


Tudo, mas TUDO muda quando se entra para um lar e se é institucionalizado. Já viste a enormidade desta palavra? INSTITUCIONALIZADO! PORRA!


Sabes o que quer dizer? Quer dizer que te separaste de ti, que deixaste de te pertencer, e vais ser apenas mais uma peça dentro de um edifício a que chamam “lar” mas que depois te institucionaliza, te prende a normas e regras frias, rígidas, impessoais e te obriga a um tratamento igualmente frio, sem toque e completamente robotizado, feito por mulheres que se obrigaram a diariamente deixar a Alma á entrada da porta, para também elas se protegerem da dor de um dia serem tratadas da mesma forma, no momento exacto em que se deixarem institucionalizar.

Estou zangada e triste porque ainda não me adaptei a esta mudança repentina e drástica para mim. Quero encontrar-me rapidamente comigo, e ir comigo à praia, ao cinema, ler um livro a meias comigo, dormir sozinha comigo e com o meu quarto.


Quero estar comigo! Só eu e eu!


Até sexta Paola! Preciso de ver o mar, de ver os teus olhos e de conversar com o Nuno!



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