• Maedra

As Cartas da Avó Lola

Paola, pelo amor de Deus, agora que saíste do pico do mundo, em vez de  andares a fazer formações sobre a morte, vê lá se me vens visitar, não chega telefonares-me todos os dias e mais que uma vez para diminuíres a tua culpa. Quando te apanhar garanto-te que levas com a cadeira de rodas.

Quando me vieres visitar vais perceber que estou muito bem instalada. O Lar é enorme, numa quinta agradável e bem tratada, tornando-se num espaço fantástico, principalmente quando há sol.

Com dois pisos, com duas alas de quartos, cada quarto com duas pessoas, são cerca de 50 pessoas, mais cerca de 20 pessoas de centro de dia que também tomam banho, são ao todo, cerca de 70 pessoas a tomar banho. Agora imagina que durante a noite ficam apenas duas pessoas e são estas duas mais uma ou outra, que entra pelas 8h da manhã, que dão banho a quase todas as pessoas em lar. Claro que estas duas funcionárias foram dando vários banhos durante a noite a quem necessitou e até às 8h têm que dar o maior número de banhos possível.

Cada equipa disputa quem faz mais e mais depressa, não quem faz melhor e com mais afecto. E ai de quem não se despachar, essas terão que ouvir as colegas a reclamar.

O problema é os residentes serem tratados como seres inanimados. Sabes que tenho tentado perceber porque é que somos tratados enquanto pessoas sem vida. É pior do que se fossemos objectos, porque cada um sabe que tem vida e a vida que tem, e quando depois se é tratado como alguém já sem vida, é pior que estares morto, porque mais do que roubar é arrancarem-te a dignidade, pela falta de respeito de já não te considerarem.

Enterram-te viva e ninguém dá por isso! É a normalização do desrespeito, da desconsideração, da indignidade. É a normalização dos contra valores.

Parece-me que as direcções não têm a mínima noção da realidade que se passa mesmo abaixo dos seus gabinetes, e falo-te aí de uns 20m de distância. E parece-me que esta equipa técnica que vejo por aqui, não sabe lá muito bem o que há-de fazer. Não vejo ninguém a reunir com este Pessoal.

Bom, e tu, que andas agora a falar da morte? Não sei o que te deu! Estás a ficar velhota Paola! Sempre te interessaste mais pela vida do que pela morte! Ou será que descobriste que afinal a morte não é mais do que um renascimento, logo outra forma de vida?

Então diz aí a quem te ouve, que tratem a morte com carinho, que lhe agradeçam a companhia durante toda a vida e que a respeitem na hora de irem embora, também na sua companhia.

Hoje morreu uma pessoa que estava no quarto ao lado meu. Foi fantástica a forma como trataram deste homem, não se ouviu nada. Foi tratado em silêncio e no maior respeito, até aparecerem duas funcionárias cuja distância ética com as primeiras era abismal.

- Então quando despacham isso? Não me digam que estava assim tão sujo, olhem que ele não vai para nenhuma festa!

E entre risadas, quem cuidava, pedia para se calarem e explicava que ainda nem sequer tinha passado uma hora após o falecimento, a audição ainda estava activa e era uma enorme falta de respeito. Qual quê? As risadas e piadas continuavam no maior despropósito.

Pergunto-me que trabalho será feito com este Pessoal, se o tema da morte é trabalhado nas discussões de casos, em formações e em supervisão com as equipas técnicas.

Mas não menos mal, foi a família quando chegou. De repente, comecei a ouvir vozes alteradas, pareciam zangadas. E qual não é o meu espanto quando ouço uma valente discussão sobre heranças, direitos e dinheiro.

Imaginei o familiar morto levantar-se, e cuspir-lhes em cima. Fartei-me de rir sozinha a imaginar os desmaios, os gritos e as correrias da família e das duas colaboradoras. Aí é que eu queria ver as piadas, as risadas e as disputas da herança.

Subir num pedestal feito de areia é  sempre queda certa!



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