• Maedra

As Cartas da Avó Lola

Quando obrigam a Morte a sair à rua num dia de Sol...


Hoje foi orgásmico!

Estive no Serra da Estrela em Campolide e estive convosco meus amigos e apesar de chover e não podermos utilizar a esplanada foi magnífico!  E o café continua bem saboroso!  Fui a minha casa que parecia não via há anos, e só saí de lá há 3 semanas!  E bem que precisava!  Falei-vos de tanta coisa, menos daquilo que fez os meus filhos quererem trazer-me do lar e se pudessem, ficar comigo de pernas engessadas em casa.

Mas conto-vos agora!

Na última visita da família a assistente social pediu para falar com a Ana e o Pedro. Queria avaliar a minha estadia, perceber como estava a ser a minha integração, qual o grau de satisfação da minha família e também para lhes pedir a minha murtalha!

Pois é!  Eu estava em lar apenas por um tempo que à partida era determinado - o tempo suficiente para recuperar e pôr-me a andar - mas tinha 70 anos e podia morrer! Como qualquer um de nós, penso eu!  Mas era necessário terem preparado uma murtalha, ou seja, uma fatiota bonita para eu ir gira  e poder acompanhar a Morte como deve ser na travessia.

O choque foi grande para os meus filhos, que não estão nem aí!  Para eles eu ainda sou imortal.  Evidentemente que disseram que não valia a pena preocuparem-se, pois eles tratariam de tudo, se acontecesse alguma coisa.  A resposta não convenceu a técnica que alertou de tudo estar pronto para a partida, não fosse o comboio chegar e eu perdê-lo, por não estar devidamente vestida!

Que me dizes Paola, tu que tens a coragem e a atitude de falares e desmistificares isto da Morte?

É fantástico como nos regemos por crenças que nem nossas são, que vêm sabe-se lá de onde e que por elas, proibímo-nos de acompanhar a evolução e a subida de consciência!

Porque razão havemos nós de ser comidos por bichinhos bem vestidos?  Será que nos comem á la carte, consoante o traje, a cor, o tecido? E será que Deus nos receberá melhor se formos bem vestidos? Possivelmente tem salas como quando vamos fazer exames médicos e enquanto esperamos na sala de  espera, ouvimos:

- Humanos vestidos com predominância de verde, por favor dirigam-se à sala verde, com predominância de cinzento ou preto, por favor dirigam-se á sala escura. Os bem vestidos á sala VIP.

Que raça esta que esqueceu que  somos todos iguais, que trata mal com quem convive diariamente, que permite  que se viva nu e roto de afeto, que mulheres e homens se matem e destruam, mas que quando morrem têm que ir bem vestidos por uma questão de respeito e dignidade, dizem!

Respeito é tratar o outro como sendo sempre alguém importante. Dignidade é não deixar que me tratem por menos.

Respeito é conseguirem ver as minhas rugas, como marcas de vida neste planeta. Dignidade é mostrar-lhes isso.

Respeito é apreciarem o meu cabelo branco, igualmente como se apreciam cabelos louros, castanhos ou ruivos. Porque o branco é apenas uma cor e nada mais. Dignidade é assumir os meus cabelos brancos, em vez de os esconder sob tinta, apenas por medo do preconceito dos outros.

Respeito é não me darem banho no lar ás 6h30m da manhã sem minha autorização. Dignidade é não permitir que o façam.

Respeito é não desvalorizarem a minha dor. Dignidade é fazer-me ouvir!



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