• Maedra

As Cartas Avó Lola

Atualizado: 26 de Fev de 2019

Paola - Deixa-te de tretas e diz me lá como era  o Carnaval em Faifa. E claro que sim, somos um povo riquíssimo culturalmente e não estamos nem aí! Sempre nos sentimos pequenos e temos uma auto-estima que ainda anda pelas ruas da amargura . Não sabemos quem somos, nem queremos  acreditar que somos GRANDES.

Vá,conta-me !

Lola -  Sabes que o carnaval em Faifa chamava-se "Intruído", que era a forma de as pessoas dizerem Entrudo. Então ouve:

Em Faifa, o Intruido começava sempre 4 semanas antes do grande dia de Terça Feira de Intruido. A primeira semana era a semana dos Amigos, com o apogeu na quinta-feira (1ª quinta- feira  das 4 semanas). A segunda semana era a semana das Amigas, com o seu ponto alto na quinta-feira (2ª quinta). A terceira semana era a semana dos Compadres, com a sua celebração na quinta-feira (3ª quinta). A quarta semana era a semana das Comadres, também com o grande dia a acontecer na quinta-feira (4ª semana).

Durante todo este período de 4 semanas, as pessoas iam fazendo as suas cegadas: valia quase tudo nas suas brincadeiras: enfarruscar (com a fuligem preta do forno enfarruscavam as mãos completamente e depois passavam-nas na cara de quem apanhassem: elas neles e eles nelas), molhar (de toda a forma e de todo o local, tudo servia para molhar quem se apanhasse e inclusive quem fosse apanhado corria o risco de ir parar ao tanque), emoleirar (com as mãos cheias de farinha, enfarinhar os incautos).

Também durante todo o tempo, os caretas, homens e rapazes, mascarados com tudo o que conseguiam arranjar de mais original, com uma peça de teatro improvisada quase no momento, corriam as casas da aldeia, fazendo rir a bom rir todos os habitantes.

Na semana dos compadres, as mulheres faziam os compadres (bonecos de papel – que era comprado para o efeito- de cores muito garridas, com uma camada de listrões (rendilhados feitos à altura do papel, ou seja cerca de 80cm). Depois de feitos, escondiam-nos cuidadosamente e ardilosamente, para que os rapazes não os encontrassem, até chegar o dia de compadres (quinta feira de manhã). Caso não fosse encontrado o compadre, na quinta feira de manhã, as mulheres traziam-no para o largo da aldeia, para ser lido o testamento deixado pelo compadre, obra de arte em verso, que com ironia atacava os podres de uns e de outros. Normalmente os bens do testamento eram deixados aos rapazes e solteiros. No fim de lido o testamento, os rapazes para salvar o compadre, corriam atrás das raparigas, que fugiam na frente a sete pés, carregando o compadre,. Era uma sarrabulhada.

Na semana das comadres, os rapazes e homens jovens faziam as comadres, de papel colorido e com a camada de listrões, que escondiam a bom esconder, a fim de que as mulheres não as descobrissem. Depois na Quinta – feira repetia-se a história, desta feita a leitura do testamento deixado às comadres, finalizando na grande sarrabulhada.

Depois vinham uns dias um nadita mais tranquilos, até que na terça feira de Intruido, à meia tarde, apareciam caretos de velhos e de velhas, que andavam pelas ruas da aldeia, com um pano molhado: as velhas batiam com o pano encharcado nas pernas dos homens e os velhos, nas pernas das mulheres. E a brincadeira mantinha-se assim, até ser noite escura, altura em que todos iam cear, nas suas casas. Aproveitando esse momento, um grupo de caretos, andava de casa em casa, celebrando uma comédia de casamento. Era o ponto alto da celebração do Intruido e com o qual encerravam as festividades.

Toda a aldeia esperava ansiosamente esta quadra festiva, todos participavam e não havia porta fechada ou recusa em colaborar. Era uma brincadeira do primeiro ao último dia e ainda hoje ao falar desses tempos, se veem os sorrisos de saudade na cara de todos.



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