Carta aberta à Senhora Ministra da Saúde

Atualizado: Out 22

Senhora Ministra,

Sou assistente social e trabalho há trinta anos com Pessoas Maiores. Por não estar há alguns meses a trabalhar por questões de saúde, não me levanto, com o coração nas mãos, como a maior parte dos meus colegas, bem como todas as pessoas que trabalham em Lar e com quem me solidarizo, respeito e agradeço.

Serve esta carta para conversar, informar… e agradecer todo o trabalho que tem realizado. Parece que estamos a perceber que somos Todos Um, que somos uma equipa enorme e que somos todos, sem excepção, dependentes uns dos outros.

Sei que não é da tutela do seu Ministério, mas mesmo assim quero falar-lhe de Lares, das suas Direcções e do Pessoal que lá trabalha, destacando as Ajudantes de lar, são 99% Mulheres. E quero falar-lhe do terreno fértil que este vírus encontrou e adorou…

As Ajudantes de lar a quem hoje agradecemos por cuidarem dos nossos, são as mesmas que ao longo dos anos têm usufruído de ordenados muito baixos e completamente desproporcionais ao trabalho que realizam, à criatividade e às responsabilidades que lhes são exigidas. São as mesmas, que cometem mau- trato, porque além de serem muitas vezes a única trave-mestra em suas casas, no Lar, exercem uma função de uma enorme responsabilidade, para a qual não têm nenhuma preparação ou formação.

Não há formação académica para esta profissão, nem qualquer tipo de preparação na maioria das instituições. Em muitas instituições, o conhecimento “técnico” adquirem-no com as colegas mais velhas. Muitas vezes, são admitidas num dia e no outro começam a cuidar de seniores com patologias crónicas, com demências, a terem de manusear sondas… sem saberem nada sobre quem é quem, sobre as especificidades, as necessidades sentidas dos seniores, que de uma assentada, têm de tomar banho de manhã e despachar até ao pequeno-almoço, tal é a urgência dos cuidados!

E será uma ironia enorme chamarmos cuidados ao que se pratica na maior parte das instituições seniores.

Senão vejamos:

- Centenas de Seniores são diariamente acordados entre as 6h e as 7h da manhã para as ajudantes de lar fazerem o seu trabalho antes de saírem de turno- a higiene diária.

Tomam banho de porta entreaberta ou completamente aberta, à pressa... O seu corpo é tratado por olhos e mãos diferentes todos os dias, roubando-lhes a privacidade, a intimidade, a dignidade...

- Centenas, dormem em quartos de dimensões pequenas, com o mínimo de toque pessoal, porque não há tempo, outras vezes não há disposição…

- Todos os quartos são exactamente iguais, com os mesmos cortinados, as mesmas colchas ou capas de édredon, mobiliário exactamente igual e, comem também sempre na mesa que lhes foi destinada, com os colegas que lhes calharam e com a toalha exactamente igual a todas as outras. Às vezes, a cor da toalha muda consoante alguma especificidade.

- Centenas de Seniores estão sujeitos à amortização do EU! São muito poucos os que ainda estão vivos! A maior parte está morto e nu porque foi despido da sua individualidade!

- Em muito poucos estabelecimentos existe possibilidade de opção na escolha da refeição. A maior parte dos Seniores come o que lhes é colocado à frente. Muitas vezes, sem funcionários com as competências necessárias para apoiarem devidamente nas refeições, consoante as necessidades de cada um, autorizando ou não, a vontade de não comer ou de querer mais, dando comida á pressa, porque há tanta coisa para fazer...

- Muitas vezes o peixe ou a carne fica no prato ou é comido frio, porque o Pessoal é pouco e não chega a todos ao mesmo tempo. E quem é invisual ou tem alguma dificuldade em manusear os talheres, fica á espera até chegar a sua vez.

- Centenas, passam o dia sentados em frente a uma televisão, ou sem fazerem nada, apenas a dormitar, ou, se ainda conseguirem, a relembrar episódios há muito vividos.

Animadores, Terapeutas Ocupacionais, Gerontólogos, Psicólogos, são profissionais ainda desconhecidos de muitas Direcções.

- Centenas, dormem com outra ou outras pessoas no mesmo quarto, que desconhecem e com quem, muitas vezes, não criam relação. E também muitos deles, são constantemente mudados do seu espaço íntimo para outro, porque é necessário, para realizar a entrada de outro utente com determinadas características, perdendo mais uma vez, o espaço, a privacidade, a intimidade, o lugar...

- E dezenas, tem medo de ainda amar, porque a família não permite, porque são humilhados no estabelecimento onde residem, porque são destratados, porque lhes dizem que já têm idade para ter juízo...

- Centenas de Seniores são vítimas de violência todos os dias, porque diariamente lhes são roubados bens preciosos como a Dignidade, a Liberdade, a Privacidade, a Intimidade, o Direito à Escolha e à Participação.

- Porque também centenas de dirigentes não tem os conhecimentos necessários para entender o estado social da instituição, ou sequer têm, algum conhecimento sobre os utentes/clientes da instituição que gerem. Apenas gerem o seu estado financeiro.

Se pensarmos que há 30 anos atrás, os técnicos e outros colaboradores levavam para as instituições máquinas de costura, utensílios necessários para cozinhar e que hoje, em muitas instituições ainda há colaboradores a levar produtos para se prestarem cuidados de higiene, técnicos a levarem material didáctico, porque ainda existem dirigentes, que não percebem a necessidade da compra destes materiais para a realização de actividades que promovam o bem-estar, então, percebemos que o caminho percorrido ainda é muito curto.

Quando ainda em muitas instituições, se resolve o problema da fuga de seniores em situação de lar/ centro de dia, com a proibição total de qualquer saída, ignorando, a necessidade de mais colaboradores para acompanhar em saídas, mais animadores para fazerem planos de cuidados e trabalharem de forma individualizada e personalizada, ou, quando não se percebe a necessidade de deambulação dos seniores com demência e a opção é ficarem sentados com contenção, não porque caem, mas porque incomodam, ou ainda, quando as equipas que prestam os cuidados são mulheres esgotadas, programadas para lavar rápido, mudar fralda, não muitas vezes, porque os gastos aumentam, dar alimentação à pressa, porque há pouco pessoal e muitas pessoas a precisarem de ajuda, percebe-se que andámos ainda muito pouco.

Também na maioria das instituições o ambiente é hostil, desgastante e stressante, quer seja pelas parcas condições de trabalho, não só de Ajudantes de lar, mas de quase todas as equipas, englobando também as equipas técnicas, quando as há, quer pela ignorância, desconhecimento ou má vontade política das Direcções, que pouco ou nada sabem sobre as necessidades sentidas destas populações, quer porque abundam chefes e muito poucos Líderes, quer porque a sua participação nas instituições que dirigem, é, ou fugaz, ou hostil.

Muito poucas são as Instituições, onde o ambiente de trabalho é agradável e onde as Direcções são uma equipa com o resto do Pessoal. As instituições seniores necessitam urgentemente de Líderes que saibam o que fazem, que saibam trabalhar em equipa com todos os seus funcionários, e que não sejam geradores de stress e descontrolo; promotores de jornadas longas de trabalho, provocando dificuldades na conciliação trabalho / vida familiar e pessoal.

E é neste ambiente institucional que a maior parte dos trabalhadores que cuidam de seniores, mas também de crianças, jovens, pessoas portadoras de deficiência, pessoas doentes... Trabalham.

Sobre as Direcções destas organizações, há que perceber que este conjunto de pessoas dirige, muitas vezes, em muitas instituições, sem preparação, sem competências pessoais e profissionais para o fazer.

Se neste momento fizéssemos uma caracterização dos dirigentes das Instituições Particulares de Solidariedade Social do nosso país, ao nível do perfil, percebíamos que não há um perfil definido para este grupo. Contudo, perceberíamos que a maior parte, tem em comum, a maneira como percepcionam estas instituições. – Uma visão ainda pouco aberta, muito concentrada na instituição e sem uma visão da função social da economia a praticar nestas instituições.

Relativamente a conhecimentos na área da gestão social, financeira e jurídica e a conhecimentos básicos sobre os grupos com que trabalham, também percebíamos que nenhum dirigente é, aconselhado a ter conhecimentos básicos sobre estas áreas, necessários para exercer a sua função de dirigente e para entender as problemáticas, os técnicos, os vários funcionários e as necessidades sentidas dos grupos alvo destas instituições.

Quanto á participação, perceberíamos que a maior parte dos dirigentes ou não tem uma participação efectiva diária, participando apenas em épocas festivas e eventos, ou participa apenas na gestão das questões financeiras.

E tal e qual como têm de se saber resolver um problema financeiro ou jurídico, também têm de saber o que a instituição precisa para colmatar ou diminuir as necessidades sentidas dos utentes /clientes.

Apesar de não se fazerem omeletes sem ovos, os dirigentes destas instituições, estão muito habituados a que as equipas, a começar pelos directores técnicos, consigam faze-las. Mais ou menos parecido com o Milagre dos Pães! Talvez porque uma grande parte das instituições seniores tem uma relação directa com a Igreja! A verdade é que no fim as coisas aparecem feitas de alguma forma. O que não querem saber é a que custo foram feitas! Mas foram feitas sem ovos! E este “milagre” é tão perverso! A ética olha-os tanto de lado…

As equipas de dirigentes das IPSS’s são na sua maioria voluntária. Contudo, apesar de termos uma lei do voluntariado que aconselha á definição de um perfil de voluntário apropriado á actividade a desenvolver e defina a existência de formação como um direito e um dever, nada há, que defina o perfil de um dirigente, e nada há, que aconselhe a algum tipo de formação para o exercício da gestão da instituição.

Quando falo em formação, falo em adquirir os conhecimentos necessários e suficientes para entender o estado financeiro e o estado social da instituição, porque é sobre estes dois estados, que se gere a instituição.

O que quero dizer é que é preciso saber o Caminho, para poder Caminhar.

Um dirigente sem o mínimo de noção da realidade social da instituição que gere, pode ser um facilitador de maus-tratos, se não tiver noção das problemáticas e das necessidades sentidas dos clientes, das dinâmicas institucionais, das necessidades dos funcionários, dos técnicos, sem noção das reais necessidades de cada sector, se não tiver noção das boas ou más práticas que se realizam.

Um dirigente que não tenha esta noção, dificilmente perceberá que apesar de ter o pessoal previsto em rácio pela segurança social, ele pode continuar a ser insuficiente para tratar dos cuidados de higiene, conforto e imagem, dadas as problemáticas existentes, facilitando desta forma, um tratamento inadequado.

Um dirigente tem de se fazer entender e tem de entender.

Dizer que as IPSS’s são um pilar e um braço direito do Estado não é novidade. Mas é um braço Peter Pan, que por alguma razão tem dificuldade em crescer e, assim continuamos sem nada que defina o perfil de um ajudante de lar e sem qualquer obrigatoriedade de formação na área em que trabalha, acontecendo o mesmo com os dirigentes destas instituições, sem supervisão técnica, sem fiscalização, permitindo a que cada instituição faça o trabalho consoante a vontade, o pensar e as crenças de quem dirige.

Cada vez é mais difícil trabalhar em Lar e cada vez há menos pessoas que o queiram fazer.

Foi neste ambiente que este vírus encontrou terreno fértil para trabalhar á vontade. Com dirigentes sem saberem o que fazer, ajudantes de lar que além de muito poucas, fazem apenas o que sabem e podem, Seniores cujo sistema imunitário está completamente debilitado e assistentes sociais a fazerem o que já estão habituados – de Bombeiros. Só que desta vez falta-lhes a água para apagar o fogo!

São os Nossos que colocamos à disposição de quem faz o melhor que sabe e pode, que por vezes mal trata e se deixa mal tratar,

Não falei de Lares particulares com e sem alvará, porque principalmente os “lares” sem alvará são um outro mundo. Um mundo que é urgentíssimo devastar e onde este vírus está a adorar estar, acompanhando outros, que por lá já proliferam…

Quando chegar a nossa vez, a sua vez Senhora Ministra e a dos seus, a dos seus colegas Ministros e das suas famílias, a minha e a dos meus e, a de todos os outros, fazemos o quê?


Parece-me muito urgente que se crie:

- Formação académica para ajudantes de lar, ajudantes familiares, ajudantes pessoais... Com a criação da profissão / carreira profissional.

- Formas de prevenção primária do Envelhecimento, nas escolas, ao nível da saúde, da alimentação, dos estilos de vida, da cultura, das emoções, da espiritualidade…

- Aconselhamento, Supervisão Profissional, Consultoria das equipas técnicas, de Ajudantes de lar e das Direcções,

- Formas de fiscalização das instituições por quem de direito e com timings e objectivos definidos

- Definição das funções, dos papéis e dos tempos de presença obrigatória das Direcções nas organizações,

- Formação para dirigentes das instituições seniores e das instituições que cuidam de crianças, de pessoas portadoras de deficiência…

- Mais e melhor legislação nestas áreas.

Muito Bem-haja

Regina Azevedo Lourenço

Assistente Social e ex-docente do Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa.

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