Dignidade! - Histórias de Assistentes Sociais

Há cerca de 23 anos fiz parte de uma equipa multidisciplinar que iniciou o seu trabalho numa instituição, depois da directora, ter sido demitida devido a algumas metodologias desapropriadas na sua actuação com os utentes e funcionários. Assim, a gestão deste Lar foi entregue a outra instituição que formou a equipa onde me encontrava. Outro dos elementos era um futuro assistente social, ainda estudante e que entrou na equipa como animador. Convém referir, que há 20 anos atrás eram poucos os animadores no mercado e por isso, eram aceites pessoas que, de alguma forma, estavam ligadas à Arte. Era esse o caso do Cláudio.

Toda a equipa Iniciou o trabalho conhecendo todos os utentes, elaborando processos bio-psico-

sociais e tentando conhecer a história de vida daquela instituição, o que não era fácil. Havia muito medo de falar... de olhar... de responder... Uma grande parte dos utentes com vulnerabilidades de ordem física, emocional e mental, concentrava-se num andar da instituição, por ordem da antiga directora. A pouco e pouco fomos trabalhando este estigma. Entre eles, umas 10 pessoas estavam ,há anos, sem se mexer, em cadeira de rodas e completamente "tolhidas" sobre si mesmas . Os braços não descruzavam, as pernas estavam completamente rígidas e a cabeça pendia sobre o queixo, revelando uma tristeza infinita, por o mundo, se limitar apenas aos seus pés.

Á medida que o tempo passava e o trabalho se ia desenrolando, entre reuniões com todos os sectores mensalmente, com os utentes, discussões de caso, apoio psicossocial, apoio médico, psicológico, actividades de animação, criação de comissões de utentes... toda a energia do medo se foi dissipando, dando lugar a um Lar, a uma Casa que todos, equipas, utentes e direcção íamos construindo.

A animação tinha, sem dúvida um impacto enorme em todas as pessoas, quer pela energia contagiante do animador, quer pela sua criatividade e empatia mas acima de tudo porque havia sempre música na maioria das actividades..

A instituição situava-se às portas de Lisboa e o dia de Stº António-13 de Junho, ía ser um dia importante para todos os Utentes, não só porque participavam na organização do dia, mas também porque ia haver música e bailarico de Stº António no exterior que era um espaço muito bonito. E há muito, muito tempo, anos, que não havia qualquer festa. A aproximação deste dia e a cumplicidade que o animador mantinha com todos, estava a criar enormes expectativas.

O animador tinha pedido que logo de manhã, à medida que os utentes fossem acordando, se colocasse música baixinho. Ele nesse dia ia chegar uma hora mais tarde que o habitual.

Quando eu ia caminho da instituição, quase a chegar, recebo um telefonema da colega da recepção que me dizia a chorar que tinha havido um milagre. Mal consegui perceber e rapidamente cheguei à instituição.

Na opinião do médico ortopedista, nada faria aquelas pessoas tolhidas sobre si mesmas, terem alguma recuperação por pequena que fosse. Mas o Cláudio conseguiu. O facto de as pessoas terem acordado com música, tinha transformado tudo. Quando chegámos à sala onde habitualmente estavam pessoas sem vida, naquele dia, cada uma delas, sem excepção, estava a afagar os cabelos, a afagar o seu corpo, como se da primeira vez se tratasse.

Para elas tudo era novo em si . Para nós tudo era novo, na aprendizagem. Os nossos olhos e de toda a equipa estavam rasos de água prontos a disparar, mas o que se deram, foram abraços enormes e o Cláudio foi, evidentemente, o primeiro.

Todos conseguiram vir para a rua dançar, dançar com as pernas e os braços mas também com as cadeiras de rodas, com o coração e com os olhos a absorver e a ad-mirar tudo para depois continuar nos dias seguintes.

O dia decorreu como se também de um primeiro se tratasse. E foi, foi o primeiro de outros tantos que se seguiram, sempre com Música

Para nós, equipa, foi também o primeiro de tantas mais aprendizagens...

Regina Azevedo Lourenço




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